Inclusão e conquista
Em cerimônia emocionante, Unioeste forma primeiro estudante surdo do campus de Toledo
Formando em Filosofia, Julio Marcos Souza relembrou sua trajetória e fez o juramento do curso e o discurso em nome da turma
Publicado em 21/08/2026 às 11:35
Entre os mais de 40 estudantes que colaram grau nesta quarta-feira (19) na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), em Toledo, estava Julio Marcos Souza, primeira pessoa surda a concluir uma graduação no campus.
Foram dez anos no curso de Filosofia Licenciatura até o momento em que o formando fez o juramento do curso e o discurso em nome da turma, em Língua Brasileira de Sinais (Libras), junto a colegas, familiares e professores. Julio não escondeu a emoção ao lembrar da trajetória, desafios e conquistas.
A trajetória até a formatura foi longa. Depois de passar pelos cursos de Direito e Pedagogia, Julio encontrou em 2016 a oportunidade de ingressar na Licenciatura em Filosofia da Unioeste de Toledo, por meio do Processo Seletivo de Vagas Remanescentes (PROVARE).
A aproximação com a Filosofia começou ainda na escola. Na época, porém, o estudante ainda não tinha acessibilidade adequada, com interpretação do conteúdo para Libras.
"A acessibilidade comunicacional mudou minha relação com o conhecimento", relatou.
Os professores despertaram seu interesse pela disciplina, e a leitura do livro O Mundo de Sofia aprofundou a aproximação com a área.
Na graduação, se apaixonou ainda mais pelo conteúdo e era isso o que o motivava, mesmo passando por algumas dificuldades. No início, ele precisava fazer o deslocamento entre Cascavel e Toledo, e o custo do transporte pesava no orçamento. Depois, seu avô, que o criou e com quem morava, ficou doente. Julio precisou conciliar os cuidados com ele, a vida pessoal e a universidade. Vieram ainda a pandemia, as dificuldades provocadas pelo ensino remoto e, posteriormente, o falecimento do avô.
Apesar de tudo, a decisão de continuar sempre prevaleceu. "Eu não quero desistir de estudar", era o que repetia. Para ele, chegar à formatura foi concretizar uma caminhada que teve interrupções, perdas, dificuldades financeiras e momentos difíceis.
"Eu não cheguei aqui porque o caminho foi fácil. Cheguei porque, mesmo quando foi difícil continuar, eu encontrei maneiras de continuar", comentou.
Apoio na graduação
A experiência acadêmica na universidade também envolveu desafios de acessibilidade comunicacional. A Filosofia apresentava uma dificuldade específica: muitos conceitos filosóficos não tinham sinais consolidados em Libras, exigindo estudo e construção conjunta entre estudante e intérpretes.
Denise Dumke, atual coordenadora do Programa de Educação Especial (PEE) do campus de Toledo e intérprete de Libras que acompanhou o estudante durante parte da graduação, conta que, no início, também encontrou dificuldades para interpretar alguns conteúdos, porque determinados conceitos não tinham sinais estabelecidos. A experiência levou à criação de um projeto para desenvolver alguns desses sinais. Para Denise, o fato de Julio ter a Libras como primeira língua e possuir uma boa leitura também facilitava o processo de interpretação.
No início, Denise era a única intérprete que acompanhava o estudante e fazia a intermediação da comunicação durante as aulas. Ela conta que a experiência também contribuiu para seu próprio desenvolvimento profissional. "Cada um fez sua parte neste processo", afirmou. Para ela, acompanhar a trajetória e ver o estudante chegar ao final do curso é muito gratificante.
Para Julio Souza, a inclusão não se resume à presença de um intérprete em sala.
"É preciso pensar em como o conhecimento será acessado, interpretado e produzido pelo estudante surdo", explicou.
Ao olhar para sua trajetória, ele não a considera apenas uma história individual, mas uma experiência coletiva de construção da inclusão.
Formatura
Durante a cerimônia, a diretora-geral do campus de Toledo, professora Patricia Sala, destacou o papel social da universidade como espaço de inclusão.
"Julio, sua presença nesta cerimônia nos lembra que a inclusão não é apenas permitir que alguém entre na universidade. Isso, por si só, já é muito importante. Mas inclusão é criar condições para que essa pessoa permaneça, aprenda, participe, conclua sua formação e possa ocupar plenamente os espaços profissionais e sociais que escolher. A universidade pública precisa ser exatamente isso, um lugar onde as diferenças não sejam obstáculos, mas parte da riqueza da vida universitária. Muito obrigada, Julio, por ter nos escolhido. Que você seja o primeiro de muitos".
A formatura, para Julio, não representa um ponto final. Ele pretende continuar a formação no mestrado e aprofundar questões relacionadas à Filosofia, à Libras e à experiência surda.
"Para mim, a formatura não é o fim dessa viagem. É o momento em que começa uma nova etapa dela", afirmou.
Fonte: Unioeste
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